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De mototaxista a motoentregador: quem compra moto usada no Brasil e o que esse mercado revela sobre o país

O Brasil encerrou 2025 com 2,19 milhões de motocicletas vendidas, o maior resultado desde 2003 segundo a Abraciclo. É um número que impressiona, mas que conta só metade da história. A outra metade está no mercado de motos usadas, que cresce em paralelo, em silêncio, movimentando um volume de negociações que as estatísticas oficiais da indústria raramente capturam com precisão. Para cada moto nova que sai da concessionária, várias outras trocam de dono nas revendas, nos classificados online e nas negociações entre particulares que acontecem todos os dias nas cidades brasileiras. E quem está comprando essas motos usadas revela muito sobre quem somos e como trabalhamos.

O trabalhador que a moto sustenta

O perfil mais numeroso do comprador de motos usadas no Brasil não é o entusiasta de final de semana nem o jovem que quer liberdade nas estradas. É o trabalhador que precisa do veículo para gerar renda todos os dias. Mototaxistas, motoentregadores, profissionais autônomos de serviços, técnicos que atendem chamados em várias regiões da cidade e vendedores externos que percorrem dezenas de quilômetros por semana compõem a espinha dorsal do mercado de motos usadas no Brasil.

Para esse perfil, a moto não é um bem de consumo. É uma ferramenta de produção. E como toda ferramenta de produção, ela precisa ter custo de entrada acessível, custo de manutenção previsível e confiabilidade para aguentar o uso intensivo do dia a dia. O mercado de motos usadas atende essas três exigências melhor do que o mercado de novas consegue fazer para a maioria dos trabalhadores. Uma Honda CG 160, que lidera as vendas de motos novas no Brasil com ampla margem, custa nas concessionárias um valor que muitos trabalhadores não conseguem financiar sem comprometer uma fatia grande da renda mensal. A mesma moto com dois ou três anos de uso, rodagem razoável e manutenção em dia, sai por um preço significativamente menor e faz o mesmo trabalho com a mesma eficiência.

Os aplicativos que transformaram o mercado

A consolidação dos aplicativos de entrega foi o maior catalisador do mercado de motos usadas no Brasil nos últimos cinco anos. A expansão do iFood, Rappi, Loggi e de dezenas de outras plataformas de logística urbana criou uma demanda por motocicletas que as concessionárias de zero-km simplesmente não conseguem absorver sozinhas. O entregador que quer começar a trabalhar no app hoje não pode esperar meses por um financiamento aprovado e um modelo novo chegando da fábrica. Ele vai à revenda de usados, negocia uma moto em condições, assina o contrato e já está trabalhando na semana seguinte.

A presidente da Fenabrave, Arcélio Jr, resume a dinâmica com precisão: a motocicleta está ligada à mobilidade real da população e à dinâmica de renda de milhões de trabalhadores. Essa ligação entre moto e renda é o que torna o mercado de motos usadas praticamente imune às oscilações do ciclo econômico. Quando a economia aperta, mais pessoas buscam renda extra nas entregas. Quando as entregas crescem, cresce a demanda por motos. E quando a moto nova fica cara, o mercado de usados absorve essa demanda sem piscar.

O comprador que evoluiu

Nem todo comprador de moto usada no Brasil é movido pela necessidade imediata de renda. Rodrigo Borges Torrealba, CEO da MotoX e especialista no setor, aponta uma mudança de perfil relevante nos últimos anos. Segundo ele, passou a receber um perfil de cliente diferente daquele que buscava apenas uma moto de entrada. Hoje o mercado recebe consumidores que poderiam comprar um modelo novo, mas optam por seminovos com baixa quilometragem porque enxergam uma relação mais equilibrada entre investimento, depreciação e custo de manutenção.

Esse comprador mais sofisticado chegou ao mercado de motos usadas pelo mesmo raciocínio que levou o comprador de automóveis a preferir o seminovo ao zero-km: a conta simplesmente fecha melhor. Uma moto nova perde entre 15% e 25% do valor no primeiro ano de uso. Quem compra um modelo com um ou dois anos de uso deixa essa perda para o proprietário anterior e entra em um ativo que já passou pelo pico de depreciação. Para quem pensa a compra como investimento e não apenas como consumo, essa lógica é difícil de ignorar.

Os modelos que dominam o mercado de usados

O mercado de motos usadas no Brasil reflete com fidelidade o que a indústria vendeu nos últimos anos. A Honda domina com folgada margem em todos os segmentos. A CG 160, que liderou as vendas de novas com 46.148 unidades apenas em junho de 2026, é também um dos modelos mais negociados no mercado de usados, pela combinação de peças baratas, rede de oficinas capilarizada em todo o país e reputação de durabilidade que décadas de presença nas estradas brasileiras construíram. A Biz, a Pop 110i e a NXR 160 Bros completam o topo do ranking de mais vendidas e, por consequência, dos mais encontrados nas revendas de usados.

A Mottu, plataforma de aluguel e venda de motos para entregadores, aparece com destaque crescente com seu modelo Sport 110i, o quinto mais vendido do Brasil em junho de 2026. É um sinal de como o mercado de motos se fragmentou: ao lado das montadoras tradicionais, surgem novos modelos de negócio voltados especificamente para o trabalhador de aplicativo, que não quer ou não pode comprar uma moto, mas precisa de uma para trabalhar.

O que os números de 2026 revelam

A Fenabrave projeta 2,416 milhões de motocicletas emplacadas em 2026, crescimento de 10% sobre 2025. A Abraciclo prevê produção de 2,07 milhões de unidades no Polo de Manaus, alta de 4,5% em relação ao ano anterior. No primeiro trimestre de 2026, a produção já chegou a 561.448 unidades, o segundo melhor resultado trimestral da série histórica. Em março, saíram das linhas de montagem 212.716 motocicletas, volume 34,5% superior ao de março de 2025.

Cada moto nova que entra no mercado é uma moto usada que vai surgir nos próximos anos. Esse ciclo de renovação constante alimenta o mercado de seminovos e garante que o comprador de moto usada no Brasil tenha cada vez mais opções, em mais faixas de preço e com históricos de manutenção mais verificáveis. O mercado amadureceu: hoje é possível comprar uma moto usada com procedência documentada, laudo cautelar, histórico de revisões e garantia pós-venda em revendas profissionalizadas que não existiam dessa forma há dez anos.

O que esse mercado revela sobre o Brasil

Um país onde o mercado de motos usadas cresce de forma consistente, independente do ciclo econômico, está revelando algo importante sobre sua estrutura social e produtiva. A moto não é um símbolo de prosperidade no Brasil. É um símbolo de necessidade, de adaptação e de uma criatividade econômica que transforma qualquer veículo em fonte de renda quando as oportunidades formais não chegam para todo mundo.

O mototaxista que atende as vilas sem linha de ônibus, o entregador que percorre a cidade de ponta a ponta para cumprir os pedidos do dia, o técnico que usa a moto para chegar antes da concorrência ao próximo chamado, todos eles compram motos usadas porque o Brasil que eles habitam exige mobilidade que o transporte público não entrega e que o carro não cabe no orçamento. O mercado de motos usadas cresceu porque o Brasil cresceu de uma forma torta, onde muita gente ficou de fora da prosperidade formal e encontrou na moto o instrumento mais barato e mais eficiente de participar da economia do jeito que deu.

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Para cada moto nova que sai da concessionária, várias outras trocam de dono nas revendas, nos classificados online e nas negociações entre particulares. E quem está comprando essas motos usadas? #OMaranhaoSeInformaAqui 

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